Quebra o meu galho?
No post do dia 18 de julho, intitulado "a falta de atenção", relatei a beleza do ipê roxo florido em pleno inverno na praça Cel Fernando Prestes, em frente a Catedral.
Centro da cidade, fluxo de pessoas apressadas e concentradas em seus afazeres, era notável ver em seus rostos o espanto ao se depararem com tamanha demonstração divina, em plena semana corrida.
Celulares antes usados para discutir negócios e marcar (outros) compromissos, agora eram usados para registrar a beleza daquela inusitada imagem.
Agora quem nos brindou com seu espetáculo foram os ipês localizados no entorno da Av. Afonso Vergueiro, também roxos.
Mas não é de coisinhas bonitinhas, cheirosinhas e fofinhas que trata este post.
Na rua onde moro, próximo a estação ferroviária Paula Sousa há, em toda extensão da calçada, de um lado, árvores de ipês, com cerca de dois anos e de dois a três metros de altura, já soltando sementes, sinal de que ela está saudável e prestes a florir.
Ou pior, estavam.
No sábado a noite (20) ao sair, passei por alí e as árvores estavam belas e saudáveis, como ilustrei. Quando voltei, porém, entre 6 e 7 da manhã, três delas estavam, simplesmente, quebradas ao meio.
Para fazer um negócio deste, não basta dar um mero tapinha nela ou torcer o galho, tem de ter esforço e dedicação. Deve-se pegar com as duas mãos a parte superior da planta, colocar a sola do pé no lugar onde se deseja quebra-la e fazer uma dose considerável de esforço, arqueando a árvore até que o topo dela encoste no chão.
Consegue visualizar a cena? Um grupo de homo erectus, na saída dum bar (que possivelmente nem tenham entrado), com doses cavalares de álcool na cabeça e, quem sabe, partículas corrosivas destruindo as vias nasais, aproveitando a ilusão de força e poder que isso proporciona para, os machos, mostrarem as fêmeas do bando do que são capazes. E do que são capazes? De matar algo! Bingo! Mas é assim fácil né? Fazer isso com o que não pode revidar, com aquilo que apenas é, e não tenta ser nada mais além disso.
Ás vezes podemos ter tido a sorte dum fiapo da árvore ter saltado e furado a retina do cretino - capaz que assim passe o sujeito a enxergar as coisas como elas realmente são.
Do outro lado da rua as palmeiras também foram seriamente danificadas. Seus galhos foram, um a um, destruídos.
Sabe a frase do Gandhi no post passado? Pois é, estou, agora, confesso, revendo meus conceitos - e pensando numa maneira útil de aproveitar o talo que sobrou do ipê, pouco mais grosso que um cabo de vassoura.
Hum...será que cês tão pensando a mesma coisa que eu?
PS* Foram colocadas talas nos ipês e estamos na esperança de que eles se recuperem. A denúncia foi feita a jornais da região. Falamos com o dono do bar próximo para conscientizar seus clientes. Ele também mostrou-se solícito e indignado com o fato.
EgG - 10:21 PM
diz aí:
Domingo, Outubro 21, 2007
osso duro de roer
Muito já foi dito, desdito, discutido e escarrado sobre o filme “Tropa de Elite”.
A discussão que tenho acompanhado agora é, mais acachapante ainda do que o filme em sí, está sendo sobre como as platéias tem reagido a ele.
No blog do Zeca Camargo (aquele mesmo!), o post do dia 18 de outubro trata justamente sobre isso, e traz relatos dele e de seus leitores assustados.
Não vou discorrer sobre eles, pois como já disse, e digo de novo, muito já foi dito. Mas cito um dos comentários, em que um leitor presenciou dois moleques se estapeando na saída do cinema, após uma sessão do filme, dizendo “tira essa farda, você não é do caveira!”.
Brincadeirinha bacana essa né? Divertida.
Ou uma expressão xavante agora, que é “áh é, então cê vai pro saco!” e o povo cai na gargalhada, tudo muito engraçado realmente e longe da nossa realidade, obra com a mera função de entreter.
O filme ilustra uma suposta realidade, mas que tem sido encarada apenas como uma obra de ficção.
Pelo menos assim era até um dos dias da semana que passou.
Vi o filme e gostaria de que os leitores aqui expressassem suas opiniões sobre ele, ou a reação de alguém que viu o filme (pra que serve um blog?), já que ali revira tanta sujeira (e de tantos lados) que não dá pra ficar imune ou se ausentar.
Vejo pouca TV, mas vejo. Dia desses passando os canais, vi uma chamada do Jornal da Globo que estranhei, passou muito rápido, mas não lembrava eu de ter visto aquela cena no filme do José Padilha.
Não vi no dia, e depois, ouvindo burburilhos, fui atrás. Na página inicial do IG, nada. Na do Terra, tbm não. Recorri ao nosso indispensável Youtube, e pude constatar a cena.
Dois supostos traficantes (sem camisa, de bermuda e chinelo??) despencando morro abaixo enquanto um helicóptero da PM os metralhava. Os me-tra-lha-va.
(não! não! não! acertô não, pegô não, pegô não...vai! vai! caiu, um caiu! pega o outro! vai, vai, vai! caiu! aêêêêêêê clapt-clapt-clapt!)
Na faculdade, ouvi alguns que acharam a cena “linda” e “pena que foram só dois”.
Não foram dois, foram doze: 10 supostos traficantes mortos (incluindo os dois do vídeo), um policial e uma criança de 4 anos. Uma criança de 4 anos.
Foi como se o “Tropa de Elite” tivesse “amaciado a minha carne” para o que viria a seguir, as cenas holliwoodianamente fantasiosas, mas desta vez tão reais, que me puseram em alerta.
No Afeganistão ocorre da mesma forma: um lado acha que o outro é o inimigo e o
executa, simplesmente. Assim como o outro lado pensa justamente a mesma coisa do outro, formando dois lados iguais da mesma moeda enraizada de ódio.
E é assim também que o governo bu$hiano tem colocado a questão, de um lado os mocinhos e do outro, os bandidos.
O problema são os outros.
A coisa está fervendo neste momento, de um lado e de outro, e nós – população classe baixa mais em crescimento (se você pertence a outra, bem vindo!) estamos bem no meio do tiroteio.
Só pra ilustrar, um guri da classe contou que andava pela cidade, de boa, com a cabeça viajando (como você andava pela cidade aos 18 anos?), pensando nas suas coisas da vida, na namorada, nos trabalhos da faculdade, quando uma mulher, do nada, o xingou (quê cê ta olhando? tô cagada por acaso?) por achar que ele estava olhando para ela. Olhando para ela.
A intolerância separa as pessoas, afastando-as umas das outras, com a distância vem a falta de confiança, e a desconfiança causa o medo, e é o medo que temos “dos outros” é o que faz dele nosso inimigo.
O Ministério Público agora vai avaliar se a Polícia exagerou na dose, e que a batalha contra esses dois não foi troca de tiros, e sim execuções.
O diretor do filme estava no Roda Viva semana passada e deixou bem claro que quando se mostra uma tortura na tela, não há a necessidade de explicar que aquilo é bizarro, a violência é grotesca por si só, não necessita legendas.
Após o vídeo, detalhe para os comentários no site, onde a maioria de nossos jovens com acesso a internet e suposta informação vibra com a ação da polícia.
Longe de escolher um lado e levantar bandeira, mas é esse o país que você quer ser?
"A não - violência nunca deve ser usada
como um escudo para a covardia.
É uma arma para os bravos" (Gandhi)
EgG - 9:25 PM
diz aí:
Terça-feira, Outubro 16, 2007
Tava na cara
Há tempos trabalhei um tempo numa grande empresa da região.
Conheço muitos que por lá passaram, muitos permanecem, muitos evoluíram.
Fiz grandes amizades lá dentro.
Melissa foi uma delas.
Sou tranqüilo, discreto, de contidos movimentos e poucas palavras.
Ela é desbocada, quebra o silêncio em gestação, de fala rápida e sem papas.
Por conta disso nos tornamos grandes amigos.
Certa vez, logo após o almoço, estávamos lado a lado na linha de produção, quando comecei a sentir uma movimentação suspeita e incomum dentro de meu estômago que ia, gradualmente, exigindo maior atenção e vigília.
- Malditas almôndegas! – pensei.
Sei que Melissa falava comigo e, embora não fizesse questão da privacidade no assunto, constantemente me olhava para constatar se estava eu prestando atenção em suas palavras.
Diante do esforço que fazia em impedir a iminente catástrofe – que, em dado momento, era SÓ no que eu pensava -, me limitava a balbuciar “hum” e de vez em quando um ”legal” saia automaticamente da minha boca, sem passar pelo cérebro.
O disfarce não durou muito e de repente ela se vira bruscamente para mim e diz, em voz alta:
- Ah Gígio, credo! Eu odeio quando você fica assim!
- Eu? Assim como?
- Assim! Com essa cara de bosta!
Melissa leu essa crônica e diz não lembrar de nada. Riu como se fosse a primeira vez.
Gígio da Lia, cronista e cagão.
EgG - 2:27 AM
diz aí:
Segunda-feira, Outubro 01, 2007
nesta data querida!
Agradeço a todos os parabéns, boas sorte, lembranças, estimas, presentes, beijocas, surpresas, torpedos, emails, abraços, apertos de mão, scrapts, cartas e jujubas açucaradas recebidas em meu aniversário, que foi no dia do post anterior, 23 de setembro.
A todos vocês minhas mais profundas considerações e estimas, além de muita saúde e convicções brotadas durante e após brava tormenta.
Embora de muitos não saiba eu a data do aniversário (há-há-há), a todos meu mais sincero carinho e respeito, além do óbvio muito obrigado!
No dia, discutia com amigos sobre o porque da mania (é quase uma regra, na verdade!) dá-se os "parabéns" pelo aniversário de alguém.
Até o single, entoado durante gerações, tem essa função. O "Parabéns Pra Você" (que em inglês significa Feliz Dia do Nascimento Pra Você) foi importado dos US and A (deve ser) e, em 1942, a Rádio Tupi organizou um concurso para escolher uma letra que casasse com a melodia de Happy Birthday To You. A vencedora foi a paulista Bertha Celeste Homem de Mello, que até sua morte, em 1999, fazia questão de que as pessoas cantassem a letra do jeito que ela escreveu.
Ainda bem que ela não ouviu a versão atual, marginal, onde o pique fora substituído por “píca” e a hora por “rôla”. Ou talvez ela tenha ouvido, e por isso não mais habita este planeta.
Escolhemos a nossa versão, moldamos numa linguagem que entendamos, fez-se cair na cultura popular e aí – adivinha? - fizemos perder totalmente o sentido da coisa!
Pensemos, meus caros, em quais as situações comuns o recebimento de um aperto de mão, um afago sincero seguida de um parabéns, em alto e bom som!? você recebe?
Se é esportista, fácil, quando sobe ao pódio e recebe a medalha. Se é papai/mamãe pela primeira vez, parabéns por ter cumprido o devido e uma nova etapa da sua vida irá começar, diferente em tudo da anterior! Se acertou que o Wagner Moura foi quem matou a Taís, parabéns pelo ócio a que dispõe sua cabeça, e assim por diante.
O fator comum das citações acima citadas é o fato de todas as situações terem, em seu fim, o mérito. O parabéns é uma palavra que só é empregada após a conquista dum objetivo, a superação de um grande desafio, o merecimento por tal coisa.
Agora qual o mérito em se fazer aniversário?
A discussão foi crescendo, várias teorias interessantes foram surgindo, já outras sumariamente descartadas. Foi difícil, houve bate-boca, soco na mesa e promessa de jogar maço de cigarro no balde de gelo mas, por eliminação, a tese vencedora foi a de que recebemos os "parabéns" no nosso aniversário pelo simples fato de...continuarmos vivos!!! - embora eu ainda não descarte a versão do espermatozóide vencedor.
De acordo com o consenso geral, recebemos os parabéns por sobrevivermos a mais um ano, fecharmos mais um ciclo, subirmos mais um degrau de escada, encerrarmos mais uma etapa no exato momento onde iniciamos outra.
Embora interessante e verdadeira seja esta idéia, o contrário também é válido, a junção do real e holístico: Cada ano a mais, na verdade, é um a menos!
A frase de Sarah Westphal Batista da Silva (que você talvez a conheça como sendo do Veríssimo filho, comprovando o que escrevi no post “só acredito, vendo!”) de que "embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu" assim, desmembrado do texto original, fora do contexto, como um pensamento epifânico em sí próprio, pode minar - embora não deva - o esforço duma vida.
Quem algum dia "quase viveu"? quem aí já teve a sensação do quase viver? De querer e não poder? Do morno ao invés da chama? Do conforto ao desafio? De amar e não ser amado? De decepcionar-se deveras com sí mesmo?
Eu já, vixe! Tantas e tantas vezes! E, quer saber? a cada ano que passa me surpreendo ainda mais com essa vidinha cada vez menos ordinária.