unjob



Domingo, Fevereiro 10, 2008


why?
A morte é realmente um grande mistério. O maior, permita-me.
Mesmo os mais sábios homens que já passaram por este planeta têm e baseiam suas opiniões e crenças de acordo com os conhecimentos que adquiriram ao longo da (pois é!) vida.
Muitos dirão, com razão, que a vida é uma experiência mística, e que as opiniões, experiências e histórias vividas por aqui devem ser consideradas.
A religião cristã prega que Jesus ressuscitou. Depois de morto, foi visto andando sobre a água de corpo físico. Em algumas outras (entre elas o budismo) crê-se na reencarnação. Segundo elas, nosso espírito não morre, permanece latente e volta incontáveis vezes, até sermos evoluídos o suficiente para cumprirmos nosso papel na Terra.
Todas as privações que hoje passamos é para que, deste modo, despertemos algum sentimento importante para nosso aprendizado (humildade, altruísmo, amor, desapego, etc.) Mas o fato é que, ninguém ainda voltou de lá e disse: Olha pessoal, é verdade mesmo. Morri, e tô aqui de novo. E lá é assim, assim, pimbolim e assado.
Portanto, independente daquilo em que cada um acredita, a opinião é baseada em idéias não comprovadas.
“Mas você não precisa comprovar certas idéias para saber que elas existem!” – dirão, sabiamente, alguns.
O fato é que isso não muda nada.
O mais inusitado é que a morte é a única coisa certa nessa vida. Não coloquei “é a única coisa da qual temos certeza” porque isso não é verdade. Pelo menos não conscientemente.
Há um grande paradoxo aí, porque mesmo sendo a morte a única certeza na vida de qualquer ser vivo, ao mesmo tempo nos parece uma coisa tão distante, tão longínqua, localizada num futuro tão obscuro e abstrato que não paramos para pensar nisso um segundo qualquer.
Pensamos continuamente em seguir em frente, desbravar, como se nada pudesse interromper nosso destino (afinal ninguém pensa que o seu destino é curto). Pensamos no seminário que vamos apresentar amanhã na faculdade, praquele que estudamos tanto!, em pagar a conta, em estar com que gostamos, no próximo encontro, em ir ao cinema ver o filme que há tanto temos esperado. Vivemos o presente, mas sempre com um dos passos no futuro. O próprio fato de caminhar, já é, em si, apenas uma “fase” para se chegar ao lugar para qual estamos indo.
Pensando que somos normais, e que todas as pessoas sejam dessa forma, alguém que morre repentinamente, without warning, também estava vivendo o presente, mas cheio de planos para o momento seguinte.
E é nisso que me pego pensando de vez em quando.
Esse é um assunto muito delicado da qual é complicado emendar todas as pontas do novelo, ficando ela assim desse jeito mesmo, feito peruca emaranhada.
Há duas semanas o mundo do entretenimento se viu perplexo diante da morte repentina de um jovem ator de 28 anos, talentoso, sadio, e prestes a estrelar um dos filmes e divulgar uma das interpretações mais aguardadas do ano.
Segundo recente laudo, Heath Ledger morreu em decorrência de intoxicação aguda pelo efeito combinado de oxicodona, hidrocodona, diazepam, temazepam, alprazolam e doxilamina.
Em entrevistas posteriores à sua morte, muitos amigos do ator afirmaram que ele lutava contra o vício em drogas e contra a depressão, esse último problema ocasionado em parte pelas pressões do seu último filme (Batman: The Dark Knight) e de sua separação da atriz Michelle Williams, com a qual tinha uma filha, Matilda.
Heath Ledger revelou semanas antes de falecer que durante a filmagem do seu último personagem, o Coringa, ele se sentia muito esgotado, tanto física quanto emocionalmente, e que estava tomando pílulas para poder dormir.
Esse post fez-se necessário por conta do anterior, onde fui elogioso pelo que vi de sua interpretação visceral e doentia do sádico vilão e ainda pelo fato dele ser um dos “Bobs Dylans” do I´m Not There, filme que exerço peculiar curiosidade em assistir.
A Warner Bros agora revê a campanha publicitária de Batman - O Cavaleiro das Trevas, e os próximos trailers devem focar no que seria a grande “surpresa” do filme, o vilão Harvey Dent (Duas-Caras).
O motivo é óbvio, para não lucrar frente a tragédia e em respeito ao difícil momento vivido pelos familiares, amigos e fãs. Apesar de que, obviamente, todos deverão ir ao cinema assistir ao filme, seja por gostar de quadrinhos, seja pela mórbida curiosidade frente ao fascínio que a morte exerce diante de nós, impotentes telespectadores de seu imprevisível roteiro.
Ledger estava atualmente filmando The Imaginarium of Doctor Parnassus, o novo filme do cineasta Terry Gilliam (da trupe Monty Python e que já havia dirigido o ator em “Irmãos Grimm”).
R.I.P.


Heathcliff Andrew Ledger

(+) Perth, 4 de abril de 1979
(-) Nova Iorque, 22 de janeiro de 2008



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