O Retorno do Rei
Olhei para avistar algum ninho, ou tentar estabelecer algum contato com os pais de Mac.
Pacientemente olhava pra cima, com ele nas mãos.
Após um tempo, avistei um bem-te-vi no alto da árvore. Incitei Mac a piar. Ele nada.
A idéia era ambos entrar em contato, e aí a coisa fluía de forma fácil. Assim era o que achava.
Coçava a barriga dele, fazia carinho na cabeça, falava ao pé douvido pra ele cantar. E ele nada.
Chegou outro bem-te-vi.
– Um casal!! Legal! – pensei.
E eram, mesmo, a cara do Mac.
Os pais começaram a piar, entre eles. Mac parecia um tanto assustado. A Afonso, nas manhãs das segundas-feiras, é um pandemônio. Aliás, que hora e dia aquilo não é?
Carros por todos os lados, poluição, fidido, fumaça, caminhão e muito mas muito barulho, o que prejudicava a comunicação entre as aves.
Mac estava agitado. Comecei a ficar impaciente também, e com torcicolo. Meu pescoço doía de tanto olhar pra cima.
Atraí muitos curiosos. Um mecânico que trabalha numa funilaria do outro lado se interessou, e de longe perguntou se era um passarinho. Fiz sinal de positivo com as mãos, ele retribuiu, riu e voltou a labuta.
Estava pensando em alguma outra alternativa, já que aquela parecia que não daria certo.
Um senhor atravessou a avenida e veio conversar comigo:
- Ele caiu é?
- Pois é, peguei ele ontem e to tentando devolvê-lo.
- Ontem é? Hum...e você mexe com passarinho?
- Eu não.
- Olha, eu acho que os pais dele não vão aceitar ele não, por causa do cheiro seu nele.
Cheirei meu sovaco por cima da camisa, e perguntei:
- E eu to fedendo por acaso?
- Não, não (riu). Quero dizer que ele vai ficar com o cheiro de outro animal impregnado nele, e os pais recusam o filhote quando isso acontece.
- Hum...então você está me chamando de animal, é isso?
- Olha rapaz – disse impaciente -, eu acho que isso não vai dar certo não. Isso aí é um bem-te-vi né?
- Aham.
- Faz o seguinte então, eu tenho experiência com passarinho, dá ele aqui pra mim que eu cuido dele.
- Ah é? Legal! mas pode deixar, obrigado.
O tiozinho malandro ficou meio sem jeito, enrolou mais um pouco ali, e quando ia embora disse:
- Tem certeza? É sua última chance, to indo embora.
- Vá com Deus!
Comecei e me preocupar. Que faria eu se aquela estratégia não desse certo?
Não tive outra escolha e, acredite, aquela foi a decisão mais difícil que tivera de tomar até aquele momento.
Empoleirei Mac novamente em meu dedo, e com cuidado levantei a mão próximo ao tronco da árvore.
Ele se equilibrava e apertava com força as garras contra mim. Abaixei minha cabeça e chacoalhei as mãos mas, pra minha nova surpresa, ele não voou! Mexi o dedo, meio disfarçando, porque, convenhamos, situaçãozinha esquisita essa.
Mas ele não dava pinta de que voaria, mesmo.
O coloquei novamente na palma da minha mão, e enquanto pensava no que fazer, fiquei a afagá-lo.
E assim ficamos um bom tempo. O ypê estava precisamente a um passo de distância minha, posto a frente.
Acariciava e pensava, pensava e acariciava e pensava no que fazer. O tempo urge – e nenhuma outra alternativa surgia em minha cabeça.
E de repente:
- Vupt!
Mac alça vôo das minhas mãos!
Mas ele foi de lado! Clap-clap-clap-clap-clap-clap-clap-clap-clap-clap atravessou a avenida e pimba! Parou num fio de alta tensão, logo acima da funilaria onde trabalha o funileiro curioso.
Achei uma burrice do Mac?
Sim.
Achei que ele escolheu o caminho mais difícil?
Sim.
Fiquei com vontade de dar-lhe umas palmadas?
Sim.
Mas diz o sábio ditado que o que não parece com o dono é roubado e o caminho mais fácil, geralmente, é o que leva pro lado errado.
Fui até embaixo de onde ele estava. Ele lá ficou, um bom tempo. Começou a pentear as penas com o bico, à vontade, mostrando autoconfiança e maturidade.
E não é que, dali a pouco, começou a cair uns pingos do céu novamente? Quando percebi, já estava me abrigando da chuva embaixo do mesmo curto toldo do dia anterior, e Mac começava a mostrar certo desconforto pela situação.
Deja-vú. > FalHa na MAtRiX Bip-BiP!
Ele olhava pra mim, e eu tentava gesticular para que ele fosse até a árvore. Fazia isso de forma disfarçada, o movimento ali era grande, que pensariam os humanos normais absortos pelo cotidiano dum maluco como eu?
Mac se encontrava de costas para a árvore, de frente pra mim. Mas quando a chuva começou a apertar, ele virou pra frente.
- Isso! Isso! – me empolguei discretamente.
E foi aí que aconteceu. Mac, após algumas ameaças, finalmente voou até a árvore! E que belo vôo!
Ele se camuflou espontaneamente entre as folhas do ypê. Fiquei mais um tempo o observando, esperando seus pais, que naquele momento não estavam em casa, voltarem para ver o que aconteceria.
Infelizmente o cotidiano racional e dogmático do homem não permite acompanhar singelas histórias como esta até o final – a não ser, é claro, quando fizerem um filme!
Mas aí, meus caros amigos, a verdadeira poesia da história é perdida.
Até hoje quando vejo um bem-te-vi imagino como está Mac. Ou quando ouço um piado bentevitesco, será Mac voltando para rever um velho amigo?
O final da história é aquilo o que prefiro acreditar. Espero ansioso um cartão postal trazida quem sabe por um de seus amigos, o pombo correio, com fotos dele e sua família.
Torço pra que Mac conte esta singela história também aos Macquinhos que virão e diga a eles que o bicho homem, senhor do universo umbigo, embora ignorante, traiçoeiro, mesquinho, perverso e egoísta, ainda pode se redimir de toda sua crueldade.
Boa sorte meu caro amigo!