Vou acordar para o tempo
Quando sentei na escadaria da Catedral da praça, o relógio marcava exatos 15:40.
Apoiei o rosto numa das mãos, descansando da longa caminhada que fizera. De forma osmótica, quase transcendental, reparei num senhor que vendia bilhetes do bicho, após vários momentos de invisibilidade, fechar duas apostas. Ao longe, um rapaz com capacete cinza e uniforme de mesma cor carregava uma escada e lentamente sumiu em meio à multidão. Uma senhora ao meu lado, ante ao degrau, ajoelhou-se e fez o sinal, balbuciou algo, beijou as mãos e levantou, seguindo viagem. Um grupo de estudantes passou falando alto e rindo, contando peripécias escolares. Ao longe ouvi um martelo renitente com batidas agudas em intervalos iguais, quebrava algo. Um caminhão da prefeitura passou, parou e recolheu algumas cascas das palmeiras que estavam pelo chão. Um casal, encostado na banca de jornal, se amava com avidez e ternura. A mãe passava com uma criança de colo, que me fitou os inocentes olhos em cumplicidade até desaparecer pra sempre no horizonte do lado esquerdo. De lá pra cá acompanhei uma bela moça, tinha tatuagem de borboleta pouco acima da virilha, e nas costas apenas o suficiente e sedutor rebolar, sumiu ao lado oposto. O barulho agudo continuava, agora mais espaçado no tempo, os risos aumentaram e um choro também neste momento participava da sinfonia, manha de criança ao longe. Saindo da igreja um senhor bem vestido afagava o neto, falavam sobre o cachorro de estimação doente. A amiga em confidência contava a gravidez, pensou no aborto. Um bêbado incomodava quem perto passava e ria da reação alheia. O pastor agora grita também, aleluias e améns, tão aquém...deus, daquilo que quero ouvir. Uma branca e bela garota pára em frente a igreja, levanta os óculos escuros e revela seus lindos e importados olhos azuis, que espantados pela arquitetura da igreja, exclama: “Uau, it´s so nice!”. Maritacas passam ao alto numa ensurdecedora cantoria. Ninguém as vê. Suponho nem as ouve. Acompanho até sumirem na imensidão do céu, e só pouso meus olhos ao chão após acompanhar uma folha lentamente se desprender do ypê e bailar, vagarosamente, até o singelo pouso no piso orvalhado. O Sol queima meu rosto, surge impávido entre o nublo. Uma sensação boa penetra os poros, divina e do peso das costas alivia. Uma prostituta discute com um, acerta com outro, e saem a vadiar. Ouço, alto, voz, alguém, passa a pouco metros falando ao celular, confirma o valor da compra. Um senhor senta no banco da praça, cruza as pernas, abre o jornal e se concentra, alheio. Duas crianças correm desordenadamente espantando as pombas, no tempo onde a diversão não tinha complicação. Um bebê no colo da tia aponta o primeiro santo esculpido na arquitetura do templo sagrado:
- Esse é São Marcos – diz.
Aponta o segundo.
- Esse é São Mateus.
A criança aponta para o terceiro.
- São Lucas – responde comodamente a tia.
E então a criança aponta para o último dos santos:
- E esse é São João!
Plim!
Pisco, acordo do imerso alternativo universo sem começo. A vejo, estranhamente, como deve ser. Reparo ao redor, nenhum outro rosto conhecido. Levanto e vou embora.
Olho as horas, 15:43.