unjob



Domingo, Setembro 28, 2008


Eles passarão, eu…
Estou numa fase inusitada da vida neste momento. Tornei-me, meio que por acaso, professor. Sim, professor! Leciono Educação Ambiental & Artes a alunos de 5ª a 8ª série numa conceituada escola da cidade. Some a isso o estágio que faço no Parque Natural e as atividades da reta (semi) final da faculdade e encontre uma pessoa escassa de tempo para todo o resto (mas pra algumas sempre damos um jeitinho, certo?).
E por isso coisas prazerosas porém menos lucrativas, digamos, acabam ficando de lado. Caso esse do meu, do seu, do nosso querido unjob.
Prefiro postar algo que julgo valer realmente a pena, demorando o que necessário for, do que meramente encher lingüiça. Agradeço aos (des)ocupados que por aqui passam sedentos por novidades unjobianas, mas a vida tem dessas. Seguimos em frente, meus caros.
Aula com a turminha da sexta-série. Como sempre, imploram por brincar na quadra de areia, navegar na internet ou divertir na sala de jogos.
Fiz uma atividade com eles, onde construímos terráreos, experiência onde é simulado a maneira como a vida manifesta-se no planeta. Embora não precise de manutenção, a idéia é, periodicamente, bisbilhotar para ver o que tem acontecido. Se as sementes já germinaram, se as plantas estão com flor, se o grilo ainda pula ou se a aranha papou os “bichinho do créu” (dá pra supor porque assim foram batizados?).
Esse nome inusitado, aliás, saiu da cabeça do Biel e da Jennifer, ambos da 5ª série.
Dei a bola há alguns alunos mas disse que ia descer até o Centro Cultural acompanhar o desenvolvimento da atividade e após, fazer uma aula ao pé da colossal figueira, que nos brinda ilustrando este post.
Usei de toda minha psicologia de boutique para convencê-los a troca do prazer momentâneo pelo conhecimento perene, dizendo que bola é sempre aquilo lá que a gente já sabe: um monte de gente correndo atrás dela e, quando finalmente alcança, dá um chutão pra bem longe e continua na busca desenfreada atrás da redondinha! Vai entender...
Já a aula seria algo novo, diferente de tudo o que já haviam aprendido. Quem quisesse me acompanhar seria muito bem vindo! Mas os deixo livres, exatamente como devem ser as coisas dessa vida. Com erros e acertos, cada um acaba encontrando o seu caminho.
Pra minha grata surpresa, muitos dos alunos deixaram as brincadeiras de lado e me acompanharam.
Vimos que os terráreos estão indo bem, obrigado. O grilo, embora sem vegetação, ainda pula. Os bichinhos danados continuando só no créu level 5 com ajuda do DJ – haja disposição! andando de lá pra cá unidos pelas partes baixas. O legal é que cada um dos terráreos torna-se uma experiência única, e temos aprendido muito a respeito de como funciona o equilíbrio do ecossistema do nosso planeta.
Após sentamos na sombra fresca da acolhedora figueira, que de acordo com meus conhecimentos deve ter já seus...hã...quase século de vida! – e iniciamos a aula.
Tudo corria bem, até que, do nada, saem gritando o Daniel e o João de trás da árvore:
- Fêssor! Fêssor! O Natan pegou um bicho na mão!
- Bicho na mão? Comassim? – assustei.
- É, olha só!
Chega o Natan e, abrindo as mãos, mostra o que havia encontrado: um filhote de rolinha. Estava ferida, tadinha, sem as penas das costas, parte da asa e do rabo.
- Ai ai ai conheço esta história! – pensei.
Na ânsia por fazer algo, começou o alvoroço:
- Deixa eu levar ele pra casa, fêssor, deixa? por favor? – suplicou a Kattilin.
- Meu pai tem passarinho! Deixa eu levar? Deixa? – disse a Sabrina.
- Bota ela na panela! – sarrou o Daniel.
Diante de tantas intenções nobres e singelas idéias a respeito do que fazer com nossa amiguinha, fizemos uma reunião, em roda, sentados no chão, para discutir o que melhor deveria ser feito.
Ficou de cuidarmos dela, de alguma forma. Soltar era uma opção sim. Porém sabíamos que na natureza, com seu processo de seleção natural, onde só os mais fortes sobrevivem, Notails não tinha chance alguma.
Sim, este foi o nome que demos a ela (vencendo “Sasá” e “Clotél”). E tem profundo significado também, pensa um pôco.
Decidimos, portanto, que se o destino dela cruzou com o dos alunos ali presentes, criamos involuntariamente um vínculo e consequentemente responsabilidade sobre sua situação, cabendo a nós fazer o que fosse possível para salvar sua vida.
Contamos com uma aliada inusitada pra isso: Talita, que é professora de Recreação na escola, abraçou a causa e agilizou um esquema, ligou pra mamãe pedindo autorização para levar Notails pra casa e colocar na gaiola que estava vaga, deixada por óbito recente de um pássaro qualquer.
Confesso que isso me preocupou um pouco (deixar um pássaro engaiolado morrer, como assim???), mas diante das escassas opções (refresque a memória) foi a melhor opção.
Talita a trouxe de volta no dia seguinte e constatei que ela está bem. Embora faminta, já que não foi alimentada como devia... né Talita?
Fez sua parte, nobre guria! e agora cabe a cada um de nós fazer o que se deve!
Já faz um tempo isso, e Notails acabou virando nossa mascote. Faz parte da aula e da turma. A alimentamos, damos de beber e a levamos pra passear. Tá espertinha e ligêra, precisa ver só!
Duro é Zorél, professor de História e Geografia, espalhando por aí que ao abrir a porta da monitoria deu de cara comigo dando de beber a bichinha, acrescentando a informação (desnecessária, diga-se) deu estar fazendo biquinho, com a rola na boca e espumando baba pelos lados.
Que lamentável...

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